O cartão entra na mesa na primeira consulta. Às vezes falta uma dose. Às vezes o esquema está completo — e o pré-natal marca outra injeção no meio da gravidez. Precisa mesmo? E o bebê?
A resposta rápida: no Brasil, o Calendário Nacional de Vacinação da gestante, do Ministério da Saúde, trata a vacina como parte do pré-natal. Algumas doses protegem você. Outras existem, também, para o recém-nascido nascer com anticorpos que a placenta já transferiu.
O mapa de 2026 no SUS: hepatite B se o esquema não está completo; influenza da temporada; COVID-19 em cada gestação; dTpa a partir da 20ª semana, em cada gravidez; vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR) a partir da 28ª semana, também em cada gravidez. Febre amarela só em avaliação de risco. Tríplice viral (SCR) e varicela, em geral, ficam para depois do parto.
Este texto é apoio educativo. Não faz o papel do pré-natal, da sala de vacina nem do atendimento de urgência. O calendário que vale no seu braço é o que a equipe lê no seu cartão, nesta cidade, neste ano.
Por que o pré-natal inclui vacina
A gravidez muda a resposta do corpo a infecções. O NHS descreve o sistema imunológico como menos capaz de combater a gripe nesse período; gestantes têm mais chance de complicação e de internamento. A Nota Técnica 119/2025 do Ministério da Saúde trata influenza, SARS-CoV-2, VSR e coqueluche como agravos de impacto perinatal.
O PNI descreve o mecanismo sem rodeio. Anticorpos que você produz passam ao feto pela placenta. Depois do nascimento, o aleitamento continua a oferecer reforço imunológico, segundo o calendário técnico da gestante. Isso não substitui as vacinas do bebê. É a ponte dos primeiros meses.
Por isso a dTpa se repete em cada gravidez: a dose desta gestação é a que alimenta essa transferência agora. A Nota Técnica 119/2025 e o calendário público dizem isso. O outro lado: tríplice viral e varicela, em geral, não se aplicam enquanto você está grávida. O PNI pede situação vacinal em dia antes de engravidar. A conversa do cartão começa cedo por isso.
O que o calendário brasileiro indica, e quando
O Ministério da Saúde organiza o ciclo da gestante em três momentos, no calendário público de 2026.
Ao saber da gravidez: hepatite B (três doses, se o esquema não está completo); dT, se faltar o básico contra difteria e tétano; influenza da temporada; COVID-19, uma dose a cada gestação; febre amarela só em casos excepcionais, com avaliação do serviço.
A partir da 20ª semana: dTpa, uma dose em cada gestação. O calendário anota que essa dose também protege o bebê nos primeiros meses.
A partir da 28ª semana: vacina contra o VSR, uma dose em cada gestação. Mesma lógica de proteção do recém-nascido.
Se alguma dessas doses não coube na gravidez, o calendário técnico pede para garantir no puerpério imediato, até 45 dias após o parto — dTpa, influenza e a atualização que ficou pendente.
Há descompasso com calendários de fora. O NHS oferece a vacina da coqueluche a partir de 16 semanas, em geral às 20, e pede para tomar antes de 32. O ACOG, nos Estados Unidos, situa a Tdap entre 27 e 36 semanas. No Brasil, a marca do PNI é a 20ª semana, em cada gravidez. Quando as páginas divergem, este texto segue o Ministério da Saúde e a FEBRASGO.
Leve o cartão na primeira consulta. Sem cartão, o serviço reconstrói o histórico pelo sistema — e, se não achar, trata como esquema incompleto. A diretriz 2025–2028 da SBIm, da SBP e da FEBRASGO alinha o mesmo núcleo de rotina.
dTpa: a tríplice bacteriana de cada gravidez
dTpa é a tríplice bacteriana acelular do tipo adulto: difteria, tétano e coqueluche. É vacina inativada. A SBIm escreve de frente: não tem como causar a doença.
A coqueluche é o motivo que o PNI mais destaca nessa dose. A Nota Técnica 119/2025 situa a dTpa da gestante para reduzir casos em menores de um ano — faixa em que a doença pesa mais. A placenta entrega parte dos anticorpos ao recém-nascido até ele começar o próprio esquema.
Uma dose a partir da 20ª semana, em cada gravidez, independentemente do histórico anterior. É o texto da Nota Técnica 119/2025 e do calendário público. Quem não tomou na janela da gestação deve receber até 45 dias após o parto.
No começo do pré-natal a equipe ainda olha o esquema básico de tétano e difteria — três doses ao longo da vida. Se faltar, atualiza com dT e reserva a dTpa para depois da 20ª semana, como complemento ou reforço. O calendário técnico pede intervalo de 60 dias após a última dose com toxoide diftérico e tetânico; em situação excepcional, o mínimo citado é 30 dias. Quem já tem o básico completo só agenda a dTpa.
A dose desta gravidez é a que interessa para este bebê. No app Gravidez sem Neura dá para marcar a semana da dTpa e o que a consulta combinou. Organiza o cartão. Não troca a sala de vacina.
Influenza e COVID-19
Gestante e puérpera entram como grupo de risco para formas graves de influenza. O calendário técnico pede a vacina da temporada. Se não coube na gravidez, administra no pós-parto até 45 dias.
É vacina inativada, fragmentada, trivalente na rede pública em 2026. Não é spray nasal de vírus vivo. O NHS recomenda a da gripe na gravidez pelo mesmo motivo: menos chance de forma grave e de internamento.
A SBIm recomenda mesmo no primeiro trimestre, na sazonalidade do vírus. Uma dose por temporada. No Norte do país a campanha pode começar mais cedo — detalhe regional, não vacina diferente para gestante.
COVID-19 não é calendário antigo de 2021. Em 2025 a vacina passou a integrar o Calendário de Vacinação da Gestante, segundo a Nota Técnica 119/2025. Em 2026 continua lá.
O calendário público resume: uma dose a cada gestação, para formas graves causadas pelo SARS-CoV-2. A Instrução Normativa de 2026 detalha: qualquer idade, qualquer fase gestacional, com intervalo mínimo de seis meses após a última dose recebida. A Nota Técnica 119/2025 acrescenta que a dose pode ser feita em qualquer período do ano.
Gestante e puérpera são grupo de risco para formas graves. A mesma nota cita a transferência de anticorpos ao recém-nascido. O ACOG, em fevereiro de 2026, ainda recomenda a dose na gravidez, em qualquer trimestre. O CDC trata as de RNAm como sem vírus vivo. O recorte deste texto é o PNI.
Esquema de quem é imunocomprometida é outro, com intervalos próprios na Instrução Normativa. Isso a equipe resolve. A nota técnica conjunta SBIm/SBP/FEBRASGO sobre o VSR lista coadministração com influenza, COVID-19, dTpa e hepatite B, em locais distintos. O serviço decide o desenho do dia.
Hepatite B e VSR
Hepatite B na gravidez é atualização de um esquema da vida adulta que muita gente nunca concluiu.
O calendário público coloca três doses ao saber da gravidez. O calendário técnico: gestantes sem esquema completo devem atualizar ainda na gestação; se não der tempo, no puerpério, de preferência até 45 dias. Quem já recebeu as três doses ao longo da vida não precisa revacinar na gravidez — o PNI trata a memória imunológica como preservada na população geral, mesmo com anti-HBs baixo.
A SBIm descreve o esquema clássico 0-1-6 meses para quem nunca vacinou. Não se reinicia o que já foi tomado: completa-se o que falta. Intervalos exatos e via ficam com a sala de vacina. A vacina é inativada, recombinante.
Se o exame do pré-natal mostrar hepatite B na mãe, o recém-nascido tem conduta própria na sala de parto — vacina e imunoglobulina, segundo o calendário técnico. Não misture com a dose da gestante.
VSR é o vírus sincicial respiratório. Causa resfriado na maior parte das pessoas. Em bebês, pode virar bronquiolite, pneumonia, dificuldade para respirar e mamar. O calendário público de 2026 lista a vacina da gestante a partir da 28ª semana, uma dose em cada gravidez, para proteger também o recém-nascido nos primeiros meses.
É vacina nova no PNI. A Nota Técnica 119/2025 situou o início da estratégia no segundo semestre de 2025. A nota técnica conjunta SBIm/SBP/FEBRASGO de março de 2026 endossa: a partir da 28ª semana, sem limite superior de idade gestacional, em qualquer época do ano, uma dose a cada gestação. O NHS também oferece por volta da consulta de 28 semanas. Se a gravidez anterior foi antes dessa incorporação, é normal não ter tomado.
A SBIm lembra duas estratégias para o bebê: vacinar a gestante e, em situações específicas, o anticorpo monoclonal no recém-nascido. Isso o pediatra resolve.
Vacinas vivas e febre amarela: o que em geral fica de fora
Vacina de vírus vivo atenuado não é a mesma classe da dTpa, da influenza inativada, da COVID-19 de RNAm nem da hepatite B ou do VSR. O NHS resume a cautela: há risco teórico de o vírus vacinal infectar o feto. A mesma página anota que não há evidência de malformação. Mesmo assim, a conduta habitual é esperar o parto.
No Brasil, o Ministério da Saúde lista gestante entre quem não deve tomar a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola). A FAQ oficial da tríplice viral repete: gestantes. O calendário SBIm 2026–27 é direto: não vacinar na gestação tríplice viral, varicela, HPV nem dengue. No puerpério, tríplice viral, HPV e varicela podem ser aplicadas, inclusive durante a amamentação, segundo o mesmo calendário.
A fronteira com o aleitamento é curta e diferente da gravidez. O que a gravidez contraindica, o puerpério muitas vezes libera — com uma exceção que o Ministério da Saúde e a FEBRASGO tratam à parte: febre amarela.
Febre amarela é vacina de vírus vivo. O FAQ do Ministério da Saúde (abril de 2025) diz que a vacinação está contraindicada para gestantes. Na impossibilidade de adiar — emergência epidemiológica, surto, epidemia — o serviço avalia risco e benefício.
O calendário público de 2026 detalha o excepcional: gestante sem esquema completo, residente ou viajante para área com circulação viral confirmada. Nesse contexto, uma dose para quem não tem comprovação, para quem tomou só uma dose antes dos 5 anos ou só a dose fracionada de 2018. Viajante: pelo menos dez dias antes da viagem. A diretriz SBIm/SBP/FEBRASGO 2025–2028 pede a mesma avaliação em área endêmica. Este texto não receitua febre amarela na gravidez.
Se a tríplice viral foi aplicada sem saber da gravidez, a BVS APS descreve a conduta: manter o pré-natal de rotina. O risco para o feto é tratado como teórico. Não se indica interrupção da gravidez por essa razão. A SBIm Família diz o mesmo: evitar engravidar por 30 dias após a tríplice viral, por precaução; se a gravidez já veio, o acompanhamento segue.
Na nutriz, febre amarela segue regra própria. O Ministério da Saúde pede para adiar até o bebê completar seis meses; se a vacinação não puder esperar, a orientação oficial é suspender o aleitamento por dez dias, com acompanhamento de banco de leite.
Parceiro, convívio e o que esperar depois
A diretriz SBIm/SBP/FEBRASGO descreve a estratégia casulo: vacinar quem cerca o recém-nascido — mãe, pai, irmãos, avós, cuidadoras, contatos próximos — porque o ambiente doméstico é a principal unidade de transmissão da coqueluche. A dTpa da gestante é o centro. O restante do casulo é conversa com a equipe.
O PNI oferece dTpa no SUS para gestante, puérpera até 45 dias, profissionais de saúde, parteiras tradicionais e estagiários que atuam com recém-nascidos. A SBIm Família indica a dTpa também para quem convive com menores de dois anos. Fora dos grupos do PNI, essa dose em geral caminha pela rede privada. Pergunte no seu município.
Depois da injeção, CDC, UKHSA e SBIm repetem o mesmo núcleo: dor, vermelhidão e inchaço no braço, que tendem a passar em um ou dois dias. Cansaço, dor de cabeça, dor muscular, febre baixa ou náusea também aparecem nas páginas da COVID-19 (CDC e RCOG). A SBIm cita compressa fria no local. O RCOG trata paracetamol como adequado na gravidez se houver febre de 38 °C ou mais — se a sua equipe indicar o mesmo. Sintoma grave, que se alonga além de 24 a 72 horas (SBIm, conforme o quadro) ou reação alérgica — falta de ar, inchaço de face, queda de pressão — pede o serviço que aplicou, ou emergência.
Se no dia da aplicação você está com febre alta, a SBIm pede para adiar até melhorar. Isso não cancela a dose: reagenda.
O que levar à consulta
A pergunta útil não é “quais vacinas existem no mundo”. É: o que falta no meu cartão nesta gravidez, nesta cidade, neste ano.
Leve o cartão. Se não achar, diga. Pergunte, uma a uma: hepatite B está completo? Influenza desta temporada? COVID-19 desta gestação, com o intervalo de seis meses? dTpa já pode, passou da 20ª? VSR já pode, passou da 28ª? Alguma vacina viva ficou pendente para o puerpério? O convívio — parceiro, avós, quem vai pegar o bebê no colo — precisa de dTpa, e onde toma?
Se houver viagem, a conversa muda. Febre amarela e destinos com exigência de certificado não se resolvem com post. O NHS pede para evitar, na gravidez, destinos que exigem vacina de viagem; se não der para adiar, a conversa é risco da doença versus risco da vacina, com a equipe.
Pode tomar mais de uma no mesmo dia? As fontes brasileiras de 2026 tratam a coadministração das vacinas de rotina da gestante como possível, em locais diferentes. A sala de vacina monta o dia. A dTpa da gravidez passada não dispensa a desta: o PNI pede uma dose a cada gestação, a partir da 20ª semana.
As vacinas de rotina da gestante no PNI são inativadas ou de RNAm. A SBIm descreve dTpa, influenza, hepatite B e a do VSR como incapazes de causar a doença. O NHS e o CDC repetem: o que se evita na gravidez, em regra, é o vírus vivo. Dor no braço não é a doença.
Nenhuma lista da internet substitui o cartão lido por quem vacina. A conversa é com a equipe do pré-natal e com a sala de vacina. Uma marca a data. A outra aplica.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento médico.
Fontes
Ministério da Saúde. Calendário de Vacinação — Gestante — https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/calendario
Ministério da Saúde / PNI. Calendário Técnico Nacional de Vacinação da Gestante (atualizado em 04/02/2026) — https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/pni/calendario-tecnico/calendario-tecnico-nacional-de-vacinacao-gestante
Ministério da Saúde. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026 — https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/publicacoes/instrucao-normativa-que-instrui-o-calendario-nacional-de-vacinacao-2026.pdf
Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 119/2025-CGICI/DPNI/SVSA/MS — https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2025/nota-tecnica-no-o-119-2025-cgici-dpni-svsa-ms.pdf
SBIm / SBP / FEBRASGO. Imunização na gestação, pré-concepção e puerpério — Diretriz 2025–2028 — https://sbim.org.br/images/24956f-Diretriz-Imunizacao_Gestacao_pre-concepcao_e_puerperio__2025-2028_.pdf_2025-08-08.pdf
SBIm. Calendário de vacinação da gestante 2026–27 — https://sbim.org.br/images/gestante-Calend-SBIm-2026-27-260619.pdf_2026-06-19.pdf
SBIm / SBP / FEBRASGO. Nota técnica conjunta — imunização contra o VSR (mar. 2026) — https://sbim.org.br/images/nt-guiarapido-imunizacao-vsr-sbimsbpfebrasgo-260304.pdf_2026-03-04.pdf
Ministério da Saúde. Tríplice viral — quem não deve tomar — https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/t/triplice-viral
Ministério da Saúde. FAQ tríplice viral — https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/t/triplice-viral/faq
Ministério da Saúde. Grávidas ou lactantes nunca podem se vacinar? (febre amarela) — https://www.gov.br/saude/pt-br/acesso-a-informacao/faq/vacinacao-febre-amarela/gravidas-ou-lactantes-nunca-podem
SBIm Família. Calendário da gestante — https://familia.sbim.org.br/seu-calendario/gestante/gestante
NHS. Vaccinations in pregnancy — https://www.nhs.uk/pregnancy/keeping-well/vaccinations/
UKHSA. Pregnant? Immunisation helps to protect you and your baby — https://assets.publishing.service.gov.uk/media/672b7a27541e1dfbf71e8c7a/UKHSA_12977_Pregnancy_Immunisations_leaflet_refresh_12_WEB.pdf
ACOG. Maternal Immunizations (fev. 2026) — https://www.acog.org/clinical/clinical-guidance/committee-statement/articles/2026/02/maternal-immunizations
CDC. Vaccine Safety for Moms-To-Be — https://www.cdc.gov/vaccines/pregnancy/vacc-safety.html
RCOG. COVID-19 vaccines, pregnancy and breastfeeding FAQs — https://www.rcog.org.uk/guidance/coronavirus-covid-19-pregnancy-and-womens-health/vaccination/covid-19-vaccines-pregnancy-and-breastfeeding-faqs/
BVS APS. Quais vacinas podem ou devem ser administradas na gestação? — https://aps-repo.bvs.br/aps/quais-sao-as-vacinas-que-podem-ou-devem-ser-administradas-na-gestacao-quais-sao-os-aprazamentos-e-as-situacoes-especiais/
BVS APS. Qual a conduta quando a vacina tríplice viral é administrada durante a gestação? — https://aps-repo.bvs.br/aps/qual-a-conduta-quando-a-vacina-triplice-viral-contra-sarampo-rubeola-e-caxumba-e-administrada-durante-a-gestacao/



